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Games e teatro (1 visualizando)
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TÓPICO: Games e teatro
#21
Roger Tavares (Admin)
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Games e teatro 2006/12/10 18:57 Karma: 9  
Relações do game com o cinema, música e literatura, muita gente conhece. Mas games e teatro, quem conhece?
Se você conhecer alguma relação de game no teatro, ou do teatro no game, por favor, liste-as aqui.
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#22
Ivan Garde (Usuário)
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Re:Games e teatro 2006/12/11 17:17 Karma: 4  
Oi Roger, eu conheço algumas relações de teatro com games.

A principal delas é por conta de um grande dramaturgo brasileiro: Augusto Boal! Já viu algum dos trabalhos dele? Resumindo bastante a história, Boal criou o "Teatro do Oprimido", tecnica que levou muito adiante as idéias de Brecht de se criar um teatro que conscientizasse o público. O Teatro do Oprimido tem uma característica muito legal que é de que em certo momento um mediador entre atores e platéia interrompe a ação e pede que os espectadores assumam o lugar de um ator para que tragam a resolução a um dado conflito, interpretando suas escolhas. Com isso Boal sempre almeja fazer com que seu público se conscientize da sociedade à sua volta por meio de uma simulação.

A simulação de Boal é a interpretação teatral, mas nós sabemos que poderíamos construir outros "palcos de simulação" (extamente como em "computers as theatre") que é o videogame.

Gonzalo Frasca, o dono do ludology.org, se tocou dessa relação e desenvolveu uma tese sobre ela: Videogames of the Opressed. Nela Frasca utiliza as idéias de Boal para fundamentar a possibilidade de criar games como simulações que conscientizem o jogador do mundo à sua volta, pois como diria Boal "a imagem do real é real enquanto imagem". Na tese Gonzalo ainda descreve como The Sims, por exmeplo, pode ser tal palco para simulaçõs da vida cotidiana.

O Teatro do Oprimido foge um tanto à imagem clássica do teatro aristotélico que temos, mas leva adiante a idéia de que, como o teatro é algo que está sendo feito na hora, diante dos olhos do público, ele pode ser interativo, o que pra mim é a principal relação entre game e teatro.
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#23
Ivan Garde (Usuário)
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Re:Games e teatro 2006/12/11 18:40 Karma: 4  
Continuando em outro post porque já um assunto diferente, games de teatro já são um pouco mais difícil de se encontrar.

É fácil ver games de filmes (principalmente porque eles podem ser de ação) e até de livros, como os de Agatha Christie, mas de teatro são quase impossíveis! Imagine como seria um jogo sobre Ricardo III, onde você tem de acabar com toda a corte inglesa ou um "Nelson Rodrigues Reloaded" em que você tem de resistir às tentações de uma cunhada sedutora ou de uma vizinha gostosa!

O mais próximo que vi disso foi um "drama interativo". Esse ano foi lançado o jogo Façade, em que você interage com dois outros personagens para ajudá-los a passar por uma crise no matrimônio. Ele não é assim, um jogo, não tem um objetivo definido, mas até por isso é bem interessante, além do fato de que você interage simplesmente escrevendo suas falas. Para que funcione os criadores desenvolveram tecnologias de compreensão de linguagem natural, expressões faciais procedurais e até uma "engine de drama".

Vale muito a pena dar uma olhada em Façade, realmente inspirador. Eu tenho muita vontade de adaptar teatro para games, acho que esse é um caminho válido.
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#26
Roger Tavares (Admin)
Admin
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Re:Games e teatro 2006/12/14 23:51 Karma: 9  
Putz, to adorando esse post, as contribuições são o máximo.

Vamos inicialmente ao Augusto Boal e ao seu Teatro do Oprimido.

Eu realmente tenho essa falha na minha educação Ivan, não gosto muito de teatro, meu negócio sempre foi montagem, edição, portanto cinema, mas admito a minha falha. Dentro desse aspecto, tenho de admitir que conheci a obra do Boal através dos estudos em interfaces digitais.

O livro da Brenda Laurel, Computer as Theatre, traz o modelo da tragédia clássica (aristotélica), para os estudos em interfaces digitais interativas. Entretanto ele não é o único modelo do teatro, como o Gonzalo Frasca, orientando da Brenda Laurel, aponta, sugerindo que os modelos de Brecht e Boal seriam mais úteis, para as mídias interativas, por decorrerem de processos que necessitem da interação entre os atores e a platéia, que de certa maneira acaba tornando-se ator, e também co-autor da peça.
Pensando-se essa maneira, o teatro de Brecht e Boal estariam para as mídias digitais, inlcuindo-se os videogames, assim como o teatro aristotélico estaria para televisão.

Um dos problemas que eu vejo na obra do Frasca, que obviamente não desmerece o seu valor, é que o Videogame do Oprimido, uma aplicação da conscientização do público, toma um rumo que me parece ser diferente do Teatro do Oprimido (pois eu nunca assisti, apenas li sobre ele), fica bastante engajado (politicamente dizendo) e o game cai em seu pior pesadelo: ele fica chato.
É claro que ser chato ou não pode variar de pessoa para pessoa, ou situação para situação, netão recomendo que joguem esses jogos políticos, como o September 12th do Frasca, que tem mais de 100 mil acessos merecidos, e vejam por si mesmos.
Também não sei se a conscientização que o Boal e o Brecht propunham era essa coscientização política apenas. Eu creio que não, pode ser também da sua situação enquanto co-autores de uma obra que não é mais tão pré-determinada quanto antes.

Enfim, aonde eu quero chegar, é que acho que essa metáfora do Boal, ou do que eu entendo como sendo a obra dele, não me parece suficiente para falar de videogames. Talvez de mídias interativas sim, pois estas não tem o comprometimento com elementos de game design, como o fator de diversão (fun factor) ou fator de entretenimento, que os videogames tem, e que se revela como a grande força destes: o inconsciente desarmado. Mas isso vai gerar uma outra grande discussão...

Completando os super links que o Ivan enviou:

Artigo do Frasca [pdf], aonde ele explica as bases da tese dele, em bem menos páginas: Rethinking Agency and Immersion: videogames as a means of consciousness-raising.

Capítulo gratuito do New Media Reader [pdf], um dos livros básicos dos estudos em novas mídias, que é bem próximo ao capítulo 2 do Computer as Theatre, da própria Brenda Laurel: Two Selections by Brenda Laurel: The Six Elements and the Causal Relations Among Them; Star Raiders: Dramatic Interaction in a Small World.

O livro da Brenda Laurel pode ser visto em nossa seção de livros, categoria afins, por não estar diretamente relacionado à games, e sim às novas mídias.

Post edited by: clauklein, at: 2006/12/15 03:13
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#28
Eduardo P. R. (Usuário)
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Re:Games e teatro 2006/12/17 21:04 Karma: 0  
Sobre semelhanças entre jogos e teatro, felizmente eu conheço uma, a quebra da quarta parede?

Ele se refere a interação direta entre o espectador e a obra de forma que não se possa separar o plano real do plano fictício(ou se possa propositalmente), isso acontece quando por exemplo um ator em um palco interaje diretamente com a plateia fazendo uma pergunta, fazendo com que eles se percebam como platéia, e como ele se dirigiu diretamente ao público ele imediatamente os transformou em personagens da peça, sejam eles passivou ou ativos, isso ocorre em jogos com uma frequência realmente baixa mas ocorre. E é um recurso válido de teatro, afirmar a audiência como audiência ou como personagem ativo da obra.

A própria vibração do controle Dual-Shock possivelmente possa ser considerada uma quebra da quarta parede, por exemplo Hideo Kojima, utiliza bastante esse recurso para nos causar surpresa durante a série Metal Gear, como quando Psycho Mantis pede para que coloquemos o controle no chão porque ele vai move-lo com a mente e ele usa a opção de rumble para faze-lo andar, ou quando depois das torturas do Ocelot a médica do codec nos pede para colocar o controle no braço para relaxar e ele também vibra, em todo o caso, é um recurso de narrativa bastante útil e trás esses dois mundos um pouco mais próximos um do outro, possivelmente haja mais algumas formas teatrais que sejam passíveis de ser aplicadas diretamente em jogos, no entanto elas podem ter sido utilizadas até mesmo por acaso, mas com certeza ainda há muito a ser explorado nesse campo para se melhorar a narrativa nos jogos.

Vou colocar alguns links aqui sobre as informações sobre Hideo Kojima e a Quarta parede, eles estão em inglês.

http://en.wikipedia.org/wiki/Hideo_Kojima
http://en.wikipedia.org/wiki/Fourth_wall

Espero que seja útíl.

Edit: Corrigido um erro ortográfico vergonhoso.

Mensagem editada por: Eduardo PRAS, em: 2007/03/26 19:39
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#206
Geovane Lacerda (Usuário)
Junior Boarder
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Re:Games e teatro 2007/07/05 07:11 Karma: 2  
Olá.

Quanto ao teatro, tem uma tese que referencio constantemente:
http://www.ohiolink.edu/etd/view.cgi? acc_num=osu1086119742
"Theatre and the video game: beauty and the beast"
de Katherine Lynne Whitlock, para doutorado em filosofia na "Ohio State University" (especialização em teatro), 2004.

Outro trabalho interessante, que apareceu no documentário recente da Discovery (A era do videogame), foi de um grupo de teatro que se apresenta virtualmente no Second Life.

Sobre o ato de intervir que Brecht e Boal tratam, muitas vezes percebo isso nos MMORPGS em algo como "o jogador enquanto (também) platéia".
A relação discursiva em um MMO, na imensa maioria das vezes*, se coloca em primeira pessoa ao mesmo tempo em que não se interpreta o personagem, com uma série de emoticons expressando subjetividades. O ato de interpretar fica pulando entre "interagir com o personagem de outro jogador" e "interagir com o outro jogador através dos avatares".

* Aqui seria: a maioria dos servidores para jogar "a esmo" (em especial os oficiais). Soube que há formas específicas de jogar WoW em que se interpreta o personagem.
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