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Mico federal

Vídeo em que um suposto laboratório americano anuncia plano de privatização da Floresta Amazônica vai parar no Senado

por Marcus Cardoso
Editor-chefe

[04/04/2007]

Quando o colega jornalista José Simão não se cansa de afirmar em suas colunas que o Brasil é o “País da piada pronta”, ele tem suas razões. Uma delas ficou clara na semana passada quando o senador Arthur Virgílio [AM], líder do PSDB no Senado, em plenário, pretendia alertar a nação quanto ao interesse de um “laboratório americano em privatizar a Amazônia”.

Foto: José Cruz/ABr

"Paguei um mico" - Líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, conhecido por seus duros discursos no plenário, denunciou empresa fictícia que pretendia privatizar a Amazônia

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Leia a íntegra do discurso de Arthur Virgílio

Piada? Não! Acredite, leitor. O que era apenas parte de um Alternate Reality Game [jogo de realidade alternativa, em tradução literal do inglês] se tornou motivo de discursos patrióticos inflamados no Senado. No último dia 27, Arthur Virgílio classificou a fictícia proposta como “extremamente grave” e lamentou a “declaração ofensiva ao Brasil”. Como se não bastasse, o senador ainda sugeriu a convocação de representantes do laboratório para prestar esclarecimentos à Subcomissão Permanente da Amazônia da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional [CRE] do Senado.

Os jogos de realidade alternativa, mais conhecidos como ARGs, chegaram ao País por meio da revista Superinteressante e da MTV [empresas do Grupo Abril], em 2006. Mas o mais famoso até o momento é o Zona Incerta, parte de uma grande jogada de marketing iniciada em dezembro do ano passado, que envolve a Guaraná Antarctica. Na história deste jogo, que acabou por pregar uma peça no Senado e no Congresso Nacional, Miro é um biólogo botânico que trabalha em Maués, no Amazonas, para a Antarctica. No começo do ano, após fazer descobertas comprometedoras, ele teria sido seqüestrado, “deixando para trás seu laboratório todo revirado e um monte de perguntas”.

Ao ressurgir, Miro afirma que o desaparecimento dele e de vários documentos comprometedores são obra da Arkhos Biotech, uma suposta multinacional americana na área de biotecnologia que defende a privatização da Amazônia como única saída para a sua preservação - no jogo, claro. Mas o senador acreditou. Acreditou no vídeo ao lado, que caiu na rede como parte integrante do jogo interativo, em que o diretor sênior de marketing da Arkhos, ‘um tal de’ Allen Perrell, aparece para lançar a campanha “Amazônia Para Todos”.

_repercussão
Os louros deste mico governamental, entretanto, não são apenas do senador Virgílio. No dia seguinte, a deputada federal Perpétua Almeida [PCdoB-AC] afirmou em sessão da Câmara dos Deputados que vai entrar em contato com os ministérios da Justiça e das Relações Exteriores para saber ‘quais as ações que a empresa norte-americana Arkhos Biotech desenvolve no País’.

A afirmação do suposto gerente de marketing no vídeo da empresa fictícia indignou a deputada. “É um acinte tamanha manifestação”, bradou. Seu discurso foi duro e passional. “A Amazônia não é só o território, não são apenas as muitas riquezas naturais. É também o seu povo, sobretudo os habitantes das florestas. Tentativas como esta da Arkhos Biotech nos indignam profundamente.”

_assista

O polêmico vídeo em que a vilã do jogo ARG, Arkhos Biotech, propõe a privatização da Amazônia como única salvação para a floresta


Vídeo que dá início ao ARG Zona Incerta, parte de uma campanha de marketing do Guaraná Antarctica

No mesmo dia, a deputada pediu explicações à Polícia Federal e aos ministério da Justiça e da Indústria e do Comércio. Contatada por Paradoxo, a deputada afirmou que ainda na noite do dia 29, já tinha tomado conhecimento que a Arkhos Biotech não existia. “Eu fiquei sabendo disso tudo pelo blog de um jornalista acreano, o Altino. Achei um absurdo e resolvi me pronunciar sobre", conta a deputada. "Depois, soube que era parte de um jogo. Mas isso é um assunto muito delicado para ser tratado como simples brincadeira."

Já o deputado estadual Ângelus Figueira, do Partido Verde-AM, requereu de diversos órgãos federais e estaduais informações sobre o que ele chamou de laboratório norte-americano Arkhos Biotech. “Essa é uma questão de uma empresa estabelecida no Estado do Amazonas, em Itacoatiara, que propõe a internacionalização da Amazônia. Isso fere a soberania nacional”, afirmou Ângelus Figueira, no plenário da Câmara do Amazônas, no dia 29.

O Jornal do Commercio do Amazonas, do alto de seus 103 anos, endossou em matéria o ato do deputado ao ‘apurar’ que a empresa [Arkhos] teria unidade no município de Itacoatiara [AM] e defenderia em seu site a “privatização da floresta amazônica, acusando o Brasil de incompetência na preservação da floresta.”

Ainda de acordo com o jornal, a Arkhos Biotech seria uma líder mundial na venda de concentrados naturais extraídos da Floresta Amazônica. Sendo que, na verdade, a Arkos não passa de uma empresa fictícia, uma entre tantas personagens de toda a trama inventada pelo jogo de realidade alternativa para promover o Guaraná Antarctica.

Para o jornal concorrente, Diário do Amazonas, “foi aberta, novamente, a ‘temporada de caça’ ao ‘inimigo estrangeiro’ interessado em garfar, sorrateiramente, a Amazônia.” De acordo com editorial do jornal, o estopim da nova onda de boatos e discursos inflamados foi o site da empresa Arkhos Biotech, que lançou a campanha “‘Amazonas para todos’, inspirada, quem sabe, no slogan do governo Lula, “Brasil para todos.” E continuam: “a intenção de cometer um ato ilícito está tão explícita no site, que as autoridades tendem a tratar a questão como uma espécie de ‘trote’. No entando, cabe aqui tratar da verdadeira ameaça interna à região.”


Sites como a Agência Amazônia e o Primeira Hora preferem não admitir a "barrigada" [jargão para erro jornalístico de apuração] e insistem em vender o fato como denúncia grave

_e por falar em insistência...
No fim da tarde de ontem, terça-feira 3/04, o senador Mozarildo Cavalcanti [PTB-RO] discursou sobre a Amazônia e citou a Arkhos Biotech. "Uma mentira repetida muitas vezes pode acabar se tornando verdade", arrematou com o clichê. Leia mais aqui.

_MANIFESTAÇÃO NA VISITA DE BUSH
Como parte do jogo, há eventos e ações no mundo real. Uma delas foi a falsa manifestação feita na frente do hotel onde o presidente americano George W Bush ficou hospedado em sua recente visita ao Brasil. Na manhã do dia 9 de março, manifestantes seguravam cartazes e distribuíam panfletos em protesto contra a “compra da Amazônia” pela multinacional americana Arkhos Biotech. Tal fato chegou a ser noticiado pela agência africana AngolaPress. O texto, no entanto, pertence à agência Reuters e foi assinada por Carmen Munari e Fernanda Ezabella. Assim como o site angolano, o G1, portal de notícias da Globo.com, e O Globo Online também veicularam a reportagem.

_POLÊMICA ANTIGA
Não é de hoje que uma possível privatização da Amazônia mexe com os humores nacionais. Em 2006, o secretário de meio Ambiente britânico, David Miliband, anunciou um plano do governo inglês para transformar a floresta em área privada. O anúncio, que foi noticiado pelo jornal Daily Telegraph, foi feito num encontro que reuniu os 20 países mais poluidores do mundo. Posteriormente, Miliband negou o fato para as autoridades brasileiras.
     [com reportagem de Nicole Mezzasalma, de Londres]

_“deixa o caso esfriar”

Em Salvador [BA], a repercussão do factóide ficou por conta do jornalista Chico Bruno, da rede de notícias Primeira Hora. Em artigo publicado também no dia 29, Bruno se mostra indignado com a demora das autoridades em tomar providências contra o fato que, ele não sabe, mas nunca existiu. “O Ministério do Meio Ambiente, através da secretária da Coordenação da Amazônia, Muriel Saragoussi, insinuou que a agência de notícias [se refere à Amazônia Notícias] teria errado ao denunciar a proposta nociva da Arkhos ao País. Sem muitos rodeios, Muriel propôs a agência de notícias deixar ‘o caso esfriar’, pois, segundo ela, esta seria a melhor forma de deixar a Polícia Federal flagrar a Arkhos”, afirma Chico Bruno em seu artigo. E alfineta: “será que essa frouxidão é para não causar constrangimentos na visita que o presidente Lula vai fazer a Bush?”

A Agência Amazônia, que se gaba de ter revelado o caso Arkhos com exclusividade e ter feito o assunto repercutir no congresso, foi além. Em matéria intitulada “Vídeo Arkhos é crime contra a soberania nacional”, publicada no dia 29, com a assinatura de Chico Araújo, a agência alardeia: “pena: reclusão, de 4 a 20 anos, prevê a Lei 7.170/83.” Mais que isso, eles consultaram advogados que afirmaram que “o atentado à soberania do Brasil fica claro quando o Allen Perrel, tido como gerente de marketing da empresa, apela: ‘ajudar-nos a comprar a Amazônia não é apenas uma ótima oportunidade de investimento. Pode ser a única maneira de salvar a floresta da extinção total’”. Para eles, além deste crime, a Arkhos pode ser acusada de “incitar a prática de estelionato, na medida em que põe à venda um patrimônio que não pertence à empresa.” Os advogados consultados pela Agência Amazônia não tiveram suas identidades reveladas.

A reportagem chegou a duvidar da existência da Agência Amazônia. Afinal, no meio de tanta realidade paralela, ela poderia ser mais um personagem do jogo promovido pela Guaraná Antarctica. Procurado por Paradoxo, Chico Araújo, diretor da agência sediada em Brasília, se sentiu ofendido quando questionado quanto à realidade de sua empresa. “Brincadeira não, aqui a gente faz um trabalho sério”, se defende. “A Agência Amazônia se preocupou com o crime contra a soberania nacional cometido por essa empresa. Agora, se a empresa é falsa, se a Guaraná lançou uma brincadeira, vai ter que arcar com as conseqüências.”

Em nota divulgada à imprensa, a Antarctica, patrocinadora do jogo, esclareceu: “O Guaraná Antarctica aderiu a uma ferramenta de marketing inovadora e diferenciada, o ainda pouco explorado ‘alternate reality games’ [ARGs], jogo que convida os consumidores da marca a desvendar um mistério. A ação gira em torno da fórmula secreta do Guaraná Antarctica".

No dia 27, ao final do discurso, o senador Arthur Virgílio foi enfático: “pensam eles que a Amazônia está à venda. Ela não está à venda!”. Pensa ele que isso tudo foi verdade.

                                                                    [reportagem apurada do dia 29 para o dia 30/03]



Marcus Vinícius  -  Maceió  -  22/04/2008 ~ 12:04
Olá amigos da Paradoxo. Acabo de receber um e-mail, enviado por uma amiga, sobre a questão do jogo virtual promovido pela guaraná antartica: a polêmica compra da Amazõnia. Apesar de se tratar de um fato já ocorrido a um certo tempo, foi apenas agora (como disse) que me dei conta desse episódio. Bem, vou ser objetivo. Acho que essa questão, na verdade, nos serviu para outro propósito: percebermos que de fato nosso país pouco faz para não só preservar, mas também para explorar CIENTÍFICAMENTE essa região riquissima em fontes biológicas. Me refiro a própria limitação que as universidades têm (por falta de apoio do governo Brasileiro)em desenvolver pesquisas sérias e de forma consciente, que não afete o equilíbrio ecológico. Soube também, através de outra amiga que estudou em uma universidade da Amazônia, que existem alguns estadunidenses que estão lá como professores, mas que suspeito que eles desenvolvem algumas outras atividades de "pesquisa". A questão é: exigirmos dos senadores ufanistas que se empoleirem menos em relação ao que eles consideram deles, e ajam mais em relação ao desenvolvimento, pesquisa e preservação da Amazônia, porque se esse ocorrido (Arkhos) foi virtual, isso não está longe de se tornar real. Um grande abraço e obrigado pela atenção. Marcus V.

 
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