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As vezes a vida nos reserva umas surpresas muito estranhas.
Uma
delas pode ser um site de games que não tem dicas, análises nem lançamentos de jogos, não participa das fofocas, não
sorteia nada e, na categoria dos sites independentes, respeitado e o
mais linkado e acessado: Comunidade Gamecultura. Isso pode realmente acontecer, mas agora incluir uma coluna
mensal sobre Semiótica já é demais.
Parece
até provocação, coisa de nerd mesmo. Mas tem sua explicação.
No início essa idéia também me pareceu estranha. Embora a
Semiótica, a ciência que estuda os signos [1] e as
relações entre eles, seja quase sempre considerada uma
ciência árida, difícil e praticamente
inacessível, a não ser para poucos iniciados, quase
como uma seita ou religião, tenho certeza que isso não
passa de um grande mal entendido, e que conseguiremos mostrar em
nosso novo espaço mensal que entender como se processam essas
relações pode não só abrir a nossa
maneira de enxergar os games, mas também de exergar o mundo.
A Semiótica não tem essa má fama à
toa. Como tudo que se prolifera e se reproduz [2], gera coisas boas e
coisas ruins. Muitos livros de explicações "sem pé
nem cabeça" se escondem atrás desse conceito, para
explicar o que não tem de ser explicado, confundir o que não
tem de ser confundido. E tais autores jogam a culpa da sua incapacidade
intelectual na Semiótica. Por ser uma filosofia, esta muitas
vezes não serve para explicar, e sim para colocar à
prova, para confundir mesmo, e gerar discussões para que
comecemos a enxergar problemas sob outros pontos de vista. Por ser
muito diferente daquilo que busca a sociedade atual: a resolução
imediata de todos os problemas, através do jeitinho ou da
medida provisória, a Semiótica passa a ser relegada ao
grande museu das ciências consideradas inúteis, e coisas
não importantes.
Essa posição escapista, entretanto, é uma
grande ingenuidade, pois em uma sociedade consumista somos levados a
pensar que todos os problemas podem ser resolvidos de maneira fácil.
Além disso, como as artes, a comunicação, a
literatura, não matam ninguém, então não
é importante discutir os seus possíveis problemas.
É certo que existem grandes problemas que nos saltam aos
olhos todos os dias, como a fome, os impostos, a inclusão
digital. Mas existem também diversos outros problemas que não
nos saltam aos olhos, pelo menos para quem não enxerga através
da Semiótica, e que são tão importantes como os
outros. Muitos problemas de comunicação, da falta dela
ao boato criminoso, podem quebrar uma empresa. Problemas nas artes,
na literatura, na imagem, podem abalar as relações
internacionais de uma nação toda. Dificuldade de
entender os sinais subjetivos de sua esposa, ou marido, podem acabar
o seu casamento. E são problemas como esses que a Semiótica
pode, se não resolver, pelo menos apontar para que alguém,
ou algum grupo, possa tomar medidas apropriadas sobre eles.
Mas.... e quanto aos games?
Em nossa área, os games, existem uma infinidade de pontos
sob os quais a luz da Semiótica poderia ser muito reveladora.
Alguém já parou para pensar no significado que a
indústria especializada ou mesmo alguns game designers
atribuem a conceitos importantes nessa área, como imersão,
jogabilidade, estratégia, interação, interface,
inteligência, personalidade, estética, e outros? Muitas vezes essas
definições são tão vazias que sequer
poderiam ser chamadas de definições. E essa falta de
entendimento, de discernimento, torna bastante difícil que uma
disciplina rica como a nossa possa crescer e gerar bons frutos.
E é ai que surge um dos grandes problemas para propor uma
coluna sobre dois temas tão mal compreendidos: Semiótica
e Games. Poucas pessoas seriam capazes auxiliar no entendimento desse
assunto, sem empobrece-lo e ligando-o ao interesse dessa comunidade:
os games. Poucos saberiam oferecer a visão ampla da Semiótica
sem se perder em suas diversas possibilidades. Para esse desafio,
elemento fundamental aos games, convidei Edson Reuter e André
Carita.
O Edson é conhecido de longa data, e uma das pessoas mais
eficazes em transformar coisas árduas em divertidas.
Infelizmente ele é um péssimo jogador, e caso um dia, eu, ele,
e você leitor, fomos jogar em time, eu prefiro que ele fique no
seu :-) Em compensação ele é Doutor em Semiótica
pela PUC-SP e um apaixonado por esse assunto.
O André Carita
eu conhecia apenas pelo seu fantástico blog, o
PensarVideojogos, e tive o prazer de conhecê-lo melhor aqui
pela Comunidade. André é professor assistente de
Semiótica no Instituto Superior de Maia, ISMAI, em Portugal, e ainda
preparando a sua entrada no mestrado, já é doutor em
jogar videojogos, e, tenho certeza, uma das grandes promessas nessa
área. Além do mais, embora eu discorde do seu gosto por
Halo, eu gostaria de tê-lo no meu time.
E não é que eles aceitaram o desafio? Inicialmente a
proposta era que eles escrevessem um texto em conjunto, mas três
problemas foram cruciais para separarmos os artigos: o idioma, as
semióticas e a educação.
É necessário explicar. Embora o idioma seja o
mesmo, muitas coisas são diferentes e fica confuso encontrar em um mesmo artigo as palavraa videogames e videojogos misturados, isso
sem falar na letra C antes do T, ora aparecendo, ora faltando, enfim,
uma mixórdia. A parte da educação, é um
"ter dedos" para com o outro, e não escrever como
achar que tem de escrever. Mas, o que dizer de "as semióticas"?
Existem diversas maneira de se ver a relação entre
os signos. Os autores partem de duas linhas semióticas que, embora
consigam conversar entre si, apresentam diferenças cruciais,
que praticamente impossibilitam tratar um mesmo tema , pelo menos
dentro de um mesmo texto. Por isso optamos por deixar as colunas
separadas, que tratariam do mesmo tema a partir de uma pergunta. A
cada mês, eu ou a comunidade colocamos uma pergunta, e cada um
deles responde a partir da sua abordagem. A pergunta pode ser sobre
um jogo, um conceito, um exemplo, uma dúvida minha, ou alguma
coisa que eu vi na rua, ou uma contribuição de algum
leitor, mas o que importa são as respostas, a maneira como
qual cada um aborda a mesma questão.
A articulação das duas semióticas acontecerá
no fórum, com a participação de você:
leitor-jogador. Durante o mês, eles estarão debatendo
com você o que escreveram na coluna. Por isso os artigos são
curtos, eles visam esclarecer a questão, com algumas
respostas, mas principalmente gerar mais perguntas.
O nome dessa coluna é Três visões, uma
Semiótica, as visões do Edson, do André, e a
sua leitor-interator, sem a qual as duas ficam incompletas.
A data de publicação é toda a 3a semana de cada mês, aqui na única
comunidade gamer com conhecimento hardcore na veia. Enfrente-a, ou
corra.
Seja bem vindo à nossa mais nova coluna mensal, e não
deixe de participar.
[1] Não entenda signo aqui como o signo astrológico.
Neste caso o signo está
relacionado com significado, com representação.
Para a semiótica uma cor, um gesto, uma palavra são
signos.
[2] Dizendo-se a partir do jargão da Semiótica: todo
signo gera novos signos.
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