Se fôssemos escrever uma lista dos games que mais marcaram os anos 90, o famoso CRPG Diablo e sua sequência estariam definitivamente entre os dez
mais. Tendo seu primeiro título lançado em 1996 e seu seguidor em 2000, este game inovou a VGmusic por apresentar uma trilha sonora vanguardista, graças à liberdade
artística dada ao criativíssimo compositor Matt Uelmen.
A sua criadora, Blizzard, já havia sido colocada no mesmo patamar que as grandes desenvolvedoras de jogos eletrônicos
pelo seu grandioso jogo de estratégia Warcraft, de 1994, e Diablo reforça esse mérito.
Vencedor do prêmio de “excelência em audio”, concedido pela IGDA (International Game
Developers Association), pelo seu trabalho em Diablo, Uelmen já havia se tornado
o in-house composer da Blizzard, isto
é, compositor com contrato permanente, quando a empresa ainda se chamava
Condor. Antes mesmo de começar a escrever a música para a aventura que levaria jogadores
ao próprio inferno o VGcomposer criara
toda parte auditiva, incluindo o sound
design e a mixagem, para uma lista vasta de games feitos pela Condor para PC, Gameboy, Super Nintendo e Game
Gear. Mesmo assim seria Diablo que o consagraria como um dos grandes
compositores para jogos da última decada.
Como foi possível
que um game, feito por uma desenvolvedora
que no momento da produção tinha apenas uma dúzia de pessoas à sua disposição e
um compositor e sound designer com equipamento antiquado e barato, alcançasse
tal nível de sucesso e reconhecimento internacional? Tudo se explica com apenas
uma palavra: Criatividade.
Se pensarmos na
história de Diablo, já se percebe o poder do game de envolver o jogador. A trama do primeiro capítulo do CRPG se passa na pequena cidade de Tristram, localizada acima de um grupo
de cavernas que mantém escondida a chamada Soulstone,
ou pedra da alma. Nela vive
aprisionado Diablo, irmão de Baal e Mephisto, que com eles forma uma espécie de trindade diabólica que
reina sobre os planos infernais. Com o poder mágico da Soulstone diminuindo sobre o Lord
Of Terror, ou senhor do terror, o
demônio consegue se livrar dela, liberando nesse momento uma energia tão forte
que quebra as fronteiras entre os planos terrestre e infernal, acabando por interligá-los nos túneis e catacumbas existentes sob Tristram. Estando de volta, Diablo
começa a infestar o novo território com hordas de criaturas abissais. Cabe
agora ao jogador deter o demônio e impedir uma guerra aberta entre o céu e o
inferno. A sequência Diablo II retoma a história no ponto onde a primeira parte
do hack&slash termina, mas não
irei detalhar os acontecimentos do jogo para deixar na curiosidade os que ainda
desejam conhecer essa série fantástica.
Deixaremos então a
trama de lado e nos concentremos na nada convencional trilha sonora feita
pelo VGcomposer Matt Uelmen . Para
criar o fundo musical do primeiro Diablo, Uelmen teve pouquíssimos recursos,
comparado a outros compositores para jogos da época. Praticamente todos os sons
presentes nos diferentes temas do jogo foram criados a partir dum teclado/sampler Ensoniq ASR-10. As diferentes
vozes eram mandadas para as oito faixas do aparelho, respeitando os meros 16 megabytes disponíveis no disco rígido do
teclado, e depois modificadas numa versão arcaica do sequenciador Cakewalk.
Após serem guardadas num gravador de fitas DAT da empresa Sony, o 59ES, as
músicas eram então editadas com o Sound Forge da Sonic Foundry.
O ASR-10 também foi
responsável pela gravação dos instrumentos naturais, incluindo o mais tocante e
reconhecido pelos fãs de Diablo: um violão de doze cordas da fabricante
Seagull. Quem ainda não ouviu o tema emocionante da cidade de Tristram, repleta de melodias e
harmonias geniais tocadas pelo dito instrumento e alteradas com diversos
efeitos, como delay e hall entre outros, precisa escutar a
faixa town *
agora!
Ainda representam a seleção de instrumentos naturais de Matt
Uelmen uma ocarina em formato de tartaruga, presente de seus pais de uma viagem
para a América Latina, uma flauta antiga, meio quebrada, da marca Artley e uma
também antiga caixa da empresa Slingerland. Mantendo o espírito de simplicidade,
o compositor gravou todos eles através de um microfone de cento e cinquenta
dólares da marca AKG.
O único instrumento elétrico utilizado na trilha sonora de
Diablo, além do teclado, é uma guitarra Charvel, enriquecida com efeitos como
um pedal de wah-wah Crybaby e a
distorção de um amplificador da marca Mesa/Boogie. Para criar o som distinto da
guitarra presente em todas músicas, Uelmen ainda aplicou vários efeitos de seu
Ensoniq nas faixas gravadas com o instrumento.
Restringindo seu material aos aparelhos e instrumentos
mencionados acima e ignorando de propósito os típicos sintetizadores e outras máquinas
achadas nos grandes estúdios de games,
Matt Uelmen conseguiu de fato escapar da mesmisse. Mas é claro, que não foi
apenas o lado material que colocou o VGcomposer
muito além dos seus contemporâneos. A verdade é que até hoje poucos chegaram a
um status comparável de individualidade e criatividade no mundo da VGmusic.
Aproveitando-se das suas influências clássicas, como Richard
Wagner, Claude Debussy e Carl Orff e levando-as ao encontro com seu gosto pelo
rock do The Police e Jimi Hendrix, Uelmen já tinha de tudo para criar um som muito
próprio. Adicionou ainda um toque de world
music e acabou desenvolvendo uma massa sonora de guitarras e synths raivosos a la Nine Inch Nails,
com percussões impactantes, já bem introduzidos no dungeon *, ou masmorra. Respeitando o tema e o enredo do game, as composições de Matt Uelmen são
angustiantes, repletas de trítonos e ficam cada vez mais bizarras. Terminam
assim com a faixa hell *, na qual há
um ritmo militarístico que lembra o tema de marte de Gustav Holst, além de assustar
com choros de bebês diabólicos!
A trilha sonora de Diablo II de uma hora de duração,
notavelmente maior que a música do primeiro Diablo, que tinha apenas vinte
minutos, apresenta muito mais influências de world music, como de música oriental e africana, muito claro em desert * e jungle *. O lado Orff e wagneriano de Uelmen também veio à tona, tornando
a trilha da sequência uma versão mais pomposa do precursor, como se percebe em ancients *. Isso fica bem claro pelo fato
da Filarmônica da Rádio Eslovaca ter sido contratada para tocar em várias faixas
do game. Independente disso, o VGcomposer confiou novamente no seu
equipamento usado no primeiro jogo, além de introduzir um grande número de
instrumentos diferentes como uma guitarra pedal steel e um piano elétrico
Fender Rhodes, por exemplo. Dessa vez também deu uma chance a alguns
sintetizadores virtuais da empresa Spectrasonics e ao sampler Nemesys
Gigasampler .
Acredito que o trabalho e sucesso de Matt Uelmen com Diablo,
especialmente com o primeiro título, é um bom exemplo de como criatividade vem
antes de todos padrões e equipamentos no mundo. Todos nós podemos inovar e mesmo
assim ou exatamente por isso sermos aprovados. Chega de VGmusic de esteira!
* Clique no “Diablo
Music Player” e escolha a faixa certa no pop-up!
(Para completar, quem é fã do guitarrista Steve Vai e de seu
álbum The Ultra-Zone devia dar uma escutada na faixa sanctuary*.)
Artigos relacionados:
Links relacionados:
Trackback(0)
|