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A criatividade vs. O óbvio: A música inovadora de Diablo I e II PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Raphael de Almeida Müller   
27-Mar-2007
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Se fôssemos escrever uma lista dos games que mais marcaram os anos 90, o famoso CRPG Diablo e sua sequência estariam definitivamente entre os dez mais. Tendo seu primeiro título lançado em 1996 e seu seguidor em 2000, este game inovou a VGmusic por apresentar uma trilha sonora vanguardista, graças à liberdade artística dada ao criativíssimo compositor Matt Uelmen.

A sua criadora, Blizzard, já havia sido colocada no mesmo patamar que as grandes desenvolvedoras de jogos eletrônicos pelo seu grandioso jogo de estratégia Warcraft, de 1994, e Diablo reforça esse mérito.

Vencedor do prêmio de “excelência em audio”, concedido pela IGDA (International Game Developers Association), pelo seu trabalho em Diablo, Uelmen já havia se tornado o in-house composer da Blizzard, isto é, compositor com contrato permanente, quando a empresa ainda se chamava Condor. Antes mesmo de começar a escrever a música para a aventura que levaria jogadores ao próprio inferno o VGcomposer criara toda parte auditiva, incluindo o sound design e a mixagem, para uma lista vasta de games feitos pela Condor para PC, Gameboy, Super Nintendo e Game Gear. Mesmo assim seria Diablo que o consagraria como um dos grandes compositores para jogos da última decada.

Como foi possível que um game, feito por uma desenvolvedora que no momento da produção tinha apenas uma dúzia de pessoas à sua disposição e um compositor e sound designer com equipamento antiquado e barato, alcançasse tal nível de sucesso e reconhecimento internacional? Tudo se explica com apenas uma palavra: Criatividade.

Se pensarmos na história de Diablo, já se percebe o poder do game de envolver o jogador. A trama do primeiro capítulo do CRPG se passa na pequena cidade de Tristram, localizada acima de um grupo de cavernas que mantém escondida a chamada Soulstone, ou pedra da alma. Nela vive aprisionado Diablo, irmão de Baal e Mephisto, que com eles forma uma espécie de trindade diabólica que reina sobre os planos infernais. Com o poder mágico da Soulstone diminuindo sobre o Lord Of Terror, ou senhor do terror, o demônio consegue se livrar dela, liberando nesse momento uma energia tão forte que quebra as fronteiras entre os planos terrestre e infernal, acabando por interligá-los nos túneis e catacumbas existentes sob Tristram. Estando de volta, Diablo começa a infestar o novo território com hordas de criaturas abissais. Cabe agora ao jogador deter o demônio e impedir uma guerra aberta entre o céu e o inferno. A sequência Diablo II retoma a história no ponto onde a primeira parte do hack&slash termina, mas não irei detalhar os acontecimentos do jogo para deixar na curiosidade os que ainda desejam conhecer essa série fantástica.

Logo de DiabloDeixaremos então a trama de lado e nos concentremos na nada convencional trilha sonora feita pelo VGcomposer Matt Uelmen . Para criar o fundo musical do primeiro Diablo, Uelmen teve pouquíssimos recursos, comparado a outros compositores para jogos da época. Praticamente todos os sons presentes nos diferentes temas do jogo foram criados a partir dum teclado/sampler Ensoniq ASR-10. As diferentes vozes eram mandadas para as oito faixas do aparelho, respeitando os meros 16 megabytes disponíveis no disco rígido do teclado, e depois modificadas numa versão arcaica do sequenciador Cakewalk. Após serem guardadas num gravador de fitas DAT da empresa Sony, o 59ES, as músicas eram então editadas com o Sound Forge da Sonic Foundry.

O ASR-10 também foi responsável pela gravação dos instrumentos naturais, incluindo o mais tocante e reconhecido pelos fãs de Diablo: um violão de doze cordas da fabricante Seagull. Quem ainda não ouviu o tema emocionante da cidade de Tristram, repleta de melodias e harmonias geniais tocadas pelo dito instrumento e alteradas com diversos efeitos, como delay e hall entre outros, precisa escutar a faixa town * agora!

Ainda representam a seleção de instrumentos naturais de Matt Uelmen uma ocarina em formato de tartaruga, presente de seus pais de uma viagem para a América Latina, uma flauta antiga, meio quebrada, da marca Artley e uma também antiga caixa da empresa Slingerland. Mantendo o espírito de simplicidade, o compositor gravou todos eles através de um microfone de cento e cinquenta dólares da marca AKG.

O único instrumento elétrico utilizado na trilha sonora de Diablo, além do teclado, é uma guitarra Charvel, enriquecida com efeitos como um pedal de wah-wah Crybaby e a distorção de um amplificador da marca Mesa/Boogie. Para criar o som distinto da guitarra presente em todas músicas, Uelmen ainda aplicou vários efeitos de seu Ensoniq nas faixas gravadas com o instrumento.

Restringindo seu material aos aparelhos e instrumentos mencionados acima e ignorando de propósito os típicos sintetizadores e outras máquinas achadas nos grandes estúdios de games, Matt Uelmen conseguiu de fato escapar da mesmisse. Mas é claro, que não foi apenas o lado material que colocou o VGcomposer muito além dos seus contemporâneos. A verdade é que até hoje poucos chegaram a um status comparável de individualidade e criatividade no mundo da VGmusic.

Aproveitando-se das suas influências clássicas, como Richard Wagner, Claude Debussy e Carl Orff e levando-as ao encontro com seu gosto pelo rock do The Police e Jimi Hendrix, Uelmen já tinha de tudo para criar um som muito próprio. Adicionou ainda um toque de world music e acabou desenvolvendo uma massa sonora de guitarras e synths raivosos a la Nine Inch Nails, com percussões impactantes, já bem introduzidos no dungeon *, ou masmorra. Respeitando o tema e o enredo do game, as composições de Matt Uelmen são angustiantes, repletas de trítonos e ficam cada vez mais bizarras. Terminam assim com a faixa hell *, na qual há um ritmo militarístico que lembra o tema de marte de Gustav Holst, além de assustar com choros de bebês diabólicos!

A trilha sonora de Diablo II de uma hora de duração, notavelmente maior que a música do primeiro Diablo, que tinha apenas vinte minutos, apresenta muito mais influências de world music, como de música oriental e africana, muito claro em desert * e jungle *. O lado Orff e wagneriano de Uelmen também veio à tona, tornando a trilha da sequência uma versão mais pomposa do precursor, como se percebe em ancients *. Isso fica bem claro pelo fato da Filarmônica da Rádio Eslovaca ter sido contratada para tocar em várias faixas do game. Independente disso, o VGcomposer confiou novamente no seu equipamento usado no primeiro jogo, além de introduzir um grande número de instrumentos diferentes como uma guitarra pedal steel e um piano elétrico Fender Rhodes, por exemplo. Dessa vez também deu uma chance a alguns sintetizadores virtuais da empresa Spectrasonics e ao sampler Nemesys Gigasampler .

Acredito que o trabalho e sucesso de Matt Uelmen com Diablo, especialmente com o primeiro título, é um bom exemplo de como criatividade vem antes de todos padrões e equipamentos no mundo. Todos nós podemos inovar e mesmo assim ou exatamente por isso sermos aprovados. Chega de VGmusic de esteira!

 


* Clique no “Diablo Music Player” e escolha a faixa certa no pop-up!

(Para completar, quem é fã do guitarrista Steve Vai e de seu álbum The Ultra-Zone devia dar uma escutada na faixa sanctuary*.)

 


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