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No mês passado, vimos o que são os jogos independentes.
Entendemos que eles geralmente se dividem em modificações
e jogos completos. Reconhecemos também que apesar de existirem
semelhanças é possível traçar uma
distinção entre ambos. Partindo da premissa de que
muitos criadores de jogos iniciaram seus estudos a partir da
modificação de outros, hoje abordaremos as
modificações.
Embora não seja regra, geralmente fazer uma modificação (vulgo Mod) de um jogo é mais fácil que fazer um jogo
completo. Isso se dá porque a modificação parte
de algum ponto em comum com um jogo previamente feito. Geralmente
esse ponto comum é a base, ou seja, o código-fonte da
programação. Significa que quem está criando a
modificação não precisa se preocupar com mais um
aspecto da criação de um jogo e nesse caso, um relativo
à programação. Por esse mesmo motivo, vários
jogos aproveitam a game engine de outros jogos, mas ainda
assim são considerados jogos completos. Logo, a mesma engine
não é o suficiente para caracterizar uma modificação.
Veja por exemplo Dark
Messiah of Might and Magic (Arkane Studios). Um jogo em primeira pessoa que utiliza
a mesma engine do Half-Life 2, o Source Engine. No
entanto, apesar das semelhanças, o restante do conteúdo
é original e entende-se que há material suficiente para
criar uma distinção entre ambos, seja através de
mapas, horas de jogo, ambientação, música ou
texturas. A câmera de ambos os jogos é em primeira
pessoa, no entanto o Dark Messiah faz uso de armas brancas,
magia e combate corpo-a-corpo em meio a uma temática de
fantasia medieval, enquanto o Half-Life 2 se foca em armas de
fogo e uma ação repleta de tiroteios em uma temática
de ficção científica.
A situação inversa ocorre com as modificações
chamadas de conversões totais. Uma conversão
total que, ao aproveitar a engine do jogo, se propõe a
mudar a maioria dos elementos de um jogo. Uma espécie de
conversão, como o nome já diz, mas que não é
suficiente para ser um jogo totalmente novo. Esse é o caso de
modificações que em vez de alterarem aspectos isolados
de um jogo, como a velocidade de projéteis ou a aparência
de um personagem, buscam alterar características de todas as
armas e as aparências de todos os personagens, por exemplo.
Nessa situação a engine é uma das poucas
coisas em comum, além da jogabilidade, que deixará o
jogador determinar se o que ele está jogando é uma
modificação ou um jogo completo.
Levando em conta a vasta quantidade de modificações
existentes em todo o mundo e para os mais variados jogos, uma
definição mundialmente aceita de mod poderia
ser: um jogo customizado ou alterado, que pode variar em proporção
parcial ou total, a fim de criar uma nova jogabilidade em torno de um
jogo que servirá como fonte de inspiração ou
recursos técnicos. As alterações podem variar em
qualquer âmbito e quanto mais houver delas, mais próximo
o mod estará de uma conversão total.
Quanto mais se busca entender a distinção entre jogo
completo e modificação é que duas coisas se
revelam. Primeiro, que essa distinção não pode
ser facilmente feita e segundo, que importa principalmente a sensação
do jogador. Um jogador notará se a sua experiência
parece estar enraizada em outro jogo. Isso se torna evidente quando
uma modificação necessita do jogo completo para ser
executada e especialmente quando inúmeros recursos (texturas,
modelos, mapas, scripts etc.) são aproveitados. No entanto,
caso o jogador identifique que vários recursos são de
fato originais e toda a experiência jogável se destaca
de uma possível fonte, deve-se concluir que provavelmente se
está lidando com um jogo completo.
Ainda assim, não é fácil traçar uma linha
divisória. Como foi dito, torna-se necessário o
discernimento de um jogador para poder opinar quanto à
sensação criada pela jogabilidade. Um caso polêmico
ocorre quando comparamos Eclipse
com 7th Serpent.
Eclipse se considera, como o próprio site diz, uma
conversão total do jogo Half-Life 2 (HL2), enquanto 7th
Serpent se considera uma conversão total do jogo Max
Payne 2 (MP2). De fato, todos os dois jogos criam experiências
jogáveis únicas e digo isso por experiência
própria.
No entanto, cada um se destaca de uma maneira diferente e para poder
identificá-los como modificações é
necessário conhecer a sua fonte. HL2 pode ser resumido,
como anteriormente feito, em um jogo de tiro em primeira pessoa
ambientado em um universo da ficção científica.
MP2 é um jogo de tiro em terceira pessoa que conta o
recurso do conhecido bullet time e é ambientado em um
universo típico de histórias policias noir.
Eclipse e 7th Serpent são, respectivamente, um
jogo de magia (especificamente telecinese) de terceira pessoa
ambientado em um universo de fantasia medieval e um jogo de tiro de
terceira pessoa ambientado em uma cidade moderna que vive uma guerra
contra um agente especial.
Apesar da descrição resumida
de 7th Serpent soar muito parecia com o seu original, a
diferença principal se dá na jogabilidade. A
experiência jogável se torna quase cinematográfica
através do combate contra inimigos nunca vistos antes, como
tanques e helicópteros, todos em um ambiente que conforme o
avanço do jogador vai sendo destruído e lembrando um
filme hollywoodiano em que há mais destruição e
explosões que qualquer outra coisa.
Eclipse desfruta de uma jogabilidade nova na qual o jogador
controla uma garota que mata inimigos, mas faz objetos como pedras e
pedaços de madeira levitarem para depois arremessá-los.
É possível afirmar por um lado que esse efeito é
similar com o da arma gravitacional de HL2. 7th Serpent
faz uso de um novo bullet time, assim como de ambientes
destrutíveis que são diferentes, mas ao mesmo tempo
remetem a momentos do MP2.
Embora cada jogo se destaque genuinamente, nenhum deles realmente tem
tempo de jogo suficiente (ou o polimento) para ser um jogo
comercializado em lojas pelo mundo a fora. Isso não faz
diferença, afinal são jogos independentes, mas o fato
de se precisar do jogo comercializado (Max Payne 2 ou
Half-Life 2) para jogá-los, nos indica na direção
da modificação. É possível identificar
possíveis raízes na jogabilidade, mas o melhor é
poder reconhecer o conteúdo original e extremamente divertido.
A dúvida quanto à linha divisória entre jogos
completos e modificações não pode ser empecilho
para a imersão. Ambos esses jogos (e eu arrisco a
considerá-los modificações) servem como exemplo
para os jogos independentes com a sua originalidade e diversão.
A resposta para dúvida virá com o discernimento do
jogador enquanto testa o jogo. O
principal é entender o valor da modificação. Que
ela é uma ramificação do jogo comercializado e
abre uma gama de possibilidades para os jogos independentes. Um dos
afluentes que compõe o ramo dos jogos independentes e busca
sempre melhorar a experiência de um jogo já existente.
Afinal, são jogos modificados que buscam apenas melhorar um
jogo. Existe forma mais prática que torná-los mais
divertidos? Os serious games que me desculpem, mas não.
Jogos
recomendados:
Conversões
parciais:
Elements
of Style - MP
Zombie
Stress - HL2
Conversões totais:
7th
Serpent - MP2
Eclipse
- HL2
Arthur Protasio é estudante de Direito na Puc-Rio. Como um
fanático por jogos, tem objetivo de os desenvolver, seja fazendo o design de mapas ou escrevendo os roteiros.
Revisado: AM
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