20-Nov-2008

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12-Set-2007
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Tá bom, eu concordo que o título mais parece um diálogo de um indivíduo com o seu possível empregador. Mas é importante que fique claro que quando você for criar alguma coisa, seja um romance, um game, obra de arte ou quetais, o uso de referências é simplesmente indispensável.

Há cerca de vinte anos, estava eu na faculdade durante uma aula de PV II com o inigualável Mestre Rui de Oliveira. A cadeira tratava de ilustração e eu tinha grandes aspirações, naquela época, de me tornar um ilustrador de livros infantis, sonho ainda não realizado, porém jamais esquecido. O tema do trabalho era uma cena passada durante o fim do Segundo Império, à escolha do aluno. Fã de carteirinha de Pedro II, decidi retratar o momento em que Sua Majestade Imperial, secundado pela Imperatriz, pela Princesa Isabel e o "prostibulento" Conde D'Eu (1) tomam conhecimento do fato.

Fiquei olhando para o bloco de rascunhos à minha frente durante um bom tempo, sem ter idéia do que fazer. Mestre Rui, muito atento, caminhava por entre as mesas olhando cada aluno e seus garatujos e dava suas dicas preciosas. Ao parar do meu lado ele disse a célebre frase que sempre repasso aos meus alunos:

— Marcos, ninguém tira algo do nada. Se você quer começar o seu trabalho, busque referências que te ajudem a retratar o que deseja.

E fez-se a luz!

Comecei a pesquisar livros sobre a época (infelizmente ainda não existia a Internet) e fiz esboços de uniformes militares, roupas, mobiliário, enfim, tudo o que fosse possível para compor uma cena. Quando decidi como seria meu enquadramento (bastante auxiliado pelo Rui) saquei meu lápis 3B Staedler e mandei ver. Em primeiro plano, Pedro II lia uma carta com o semblante triste, secundado pela Imperatriz. Logo após vinha a Princesa Isabel e, no fundo, seu marido e o soldado que havia trazido a infame mensagem, que comunicava ao Imperador o final de sua época e o início da Ré-Pública (sim, a grafia é esta mesma, por se tratar desta sucessão de equívocos chamada de governo republicano, que destronou um sábio para empossar a "nata" da escória – desde generais esclerosados até um analfabeto, passando por uma miríade de malfeitores que fariam o Asilo Arkham parecer um jardim de infância).

É justamente sobre esta experiência que vou falar aqui hoje. O uso de referências é indispensável para qualquer artista, escritor et cetera, pois fornece informações preciosas sobre os mais variados aspectos, seja arquitetura, anatomia, estilo literário, tamanho de parafusos, chifres de animais e o que mais você quiser. Quando nos referenciamos, mesmo que decidamos transgredir a forma original, podemos fazê-lo com base em algo já conhecido, o que potencializa positivamente o objeto de criação. Se, ao contrário, queremos nos ater fielmente, as referências ajudarão a conferir a credibilidade necessária.

Conforme vocês já perceberam, usar referências pode poupar muitas horas de trabalho, pois quantas vezes não tivemos que refazer algo porque não estava de acordo com as nossas expectativas ou com as alheias? Como é um arco botante? Qual a proporção de uma coluna jônica? Fernando Pessoa usava gíria de surfista? Um personagem baseado no Elton John deve cantar com sotaque caipira? Perguntas, perguntas e perguntas. Como encontrar a resposta? (Ih, mais uma pergunta!)

Busque referências. Não é da Oi, mas é simples assim.

Para ilustrar, vou falar um pouco de uma das cidades do cenário Fantapunk, a primeira a ser apresentada para o público: Merigreiss - O Condado da Flor do Sol. Trata-se de uma pequena cidade que veio a se tornar um poderoso pólo industrial do cenário, onde são fabricadas as locomotivas que cortam o continente de Hy-Brasil levando o progresso da Revolução Industrial e as adastras (armaduras de combate a vapor) e os gigantes de ferro que disparam suas armas nos campos de batalha.

A arquitetura de Merigreiss é fortemente inspirada nos subúrbios londrinos do final do século 19 e nas fábricas inglesas da época vitoriana. Existem mansões e chateaus, algumas casas escocesas e também sobrados portugueses. A urbanização é mais moderna, com ruas largas e esgoto subterrâneo como já era comum no Rio de Janeiro do século 20. A iluminação pública e residencial é a gás, extraído dos esgotos em um processo alquímico de conversão realizado dentro do gasômetro. Existem áreas agrícolas, industriais, escolas, partes nobres onde se localizam as mansões, a rua dos bancos, uma ponte-cidade sobre a temível Floresta Negra e por aí vai.

Cada um destes itens foi criado tendo uma base de referências, que foram coletadas ao longo de vários meses. A composição da cidade, com quase duzentas ruas, foi trabalho de mais de um ano, mas o resultado é um local para aventuras com um grande "potencial de realidade", se é que me entendem. Quando seu aventureiro cruzar o Arco dos Mosqueteiros, na praia pequena, ou parar defronte da estação de Merigreiss Central, vai ver um ambiente que tem fortes ligações com algo que existe no mundo físico e que foi transposto para o mundo ficcional virtual com as necessárias adaptações. E isso faz diferença na hora de aprofundar a imersão do jogador no ambiente.

Minha sugestão é que você comece a fazer um arquivo de imagens e textos dos mais variados tipos para auxiliá-lo durante o processo criativo para, depois, os modeladores começarem a tornar o seu sonho visível e "interagível". Neste momento em que vos escrevo, meu pequeno condado começa a ganhar forma através de modelagem 3D e vocês não fazem idéia do que é ver aquela planta baixa da cidade, tantas vezes feita, refeita e admirada se tornar um lugar onde o avatar pode andar, subir ruas, abrir portas...

Antes da era digital, ter um arquivo vasto era um transtorno, pois ocupava (muito) espaço, poeira e era difícil encontrar o que se queria, pois significava ter que catalogar, recortar folhas, colar imagens em pedaços de papel e coisas assim. Agora, bastam alguns CDs ou DVDs, separar as imagens em pastas próprias e voilá!Rapidamente você recupera a informação que precisa. Sem falar que o bom e velho Google pode trazer outras tantas informações caso você queira.

Como é fácil armazenar e praticamente de graça pesquisar, recomendo que vocês descartem o mínimo possível de informações, principalmente imagens, que podem ser apreendidas em menos tempo do que um texto. Uma vez que não sabemos exatamente todos os caminhos criativos que iremos trilhar no desenvolvimento de um jogo, é sempre útil manter um bom estoque de referências que podem render um vilão, um personagem secundário não previsto inicialmente, a casa do farmacêutico, a carruagem do marquês e quetais. Para estas referências que aparentemente não temos um uso imediato, uma pastinha com o nome "diversos" vem bem a calhar.

As referências oferecem por si só informações que auxiliam na criação e desenvolvimento de um produto. Mas podem ser muito mais produtivas de acordo com as suas referências pessoais – o seu arcabouço, como diziam os antigos – que propiciam, inclusive, uma mudança às vezes radical no processo criativo e rendem o tão propalado diferencial competitivo ao seu projeto. Com isso, acostume-se a aprender, a pensar, a raciocinar. Descubra o prazer de ser culto, pois isso faz toda a diferença!

Recentemente, dando aula sobre game design, falava eu sobre o tema desta coluna e citei dois exemplos cinematográficos de uso intensivo e brilhante de referências: O Senhor dos Anéis e Capitão Sky e o Mundo do Amanhã. O primeiro todo mundo conhece, já o segundo, para aqueles que não tiveram ainda a oportunidade, é um remake das famosas "fitas em série", como eram chamados no tempo dos meus pais, no qual uma história é contada em capítulos semanais, que sempre termina numa situação de perigo eletrizante que será resolvida na semana seguinte. O diretor de Capitão Sky pesquisou filmes de época, trilha sonora, tecnologia e – o melhor de tudo – a atmosfera fictícia que envolvia os personagens. O resultado foi um filme excelente para os apreciadores de cinema.

Nesta mesma aula, recebi uma dica: O Labirinto do Fauno, um filme espanhol, passado durante a guerra civil daquele país, na década de 1930, que alçou e blindou um suíno no poder durante décadas, fazendo o velho reino de Aragão e Castela mergulhar nas Trevas de Mordor. Figurino impecável, atuação idem e uma crueldade tão realista que faz do filme Tropa de Elite quase um desenho do Mickey. Em contraponto, um mix com os ambientes mágicos dos contos de fadas que faz com que não consigamos descobrir se o que acontece é produto da imaginação da jovem menina ou se é tudo real. Vale a pena conferir.

Voltarei a este assunto outras vezes, com dicas sobre criação a partir de referências. O meu conselho final de hoje é: pesquise suas próprias referências, aprenda com tudo o que for possível e torne-se a sua própria escola! Depois troque com seus amigos e aumente o seu arcabouço. Afinal, se eu tenho uma maçã e você tem outra e nós trocamos, ambos continuamos com uma maçã. Mas se eu tenho uma idéia e você tem outra e nós trocamos, no mínimo cada um de nós fica com duas idéias. Ou referências...

Um grande abraço a todos e até daqui a duas semanas, na minha coluna sobre o metaverso do Second Life.

A união faz a força,

Unidos somos invencíveis,

Um por todos e todos por um!

Archanjo 0:)

Legenda:
1. Dizem por aí que o distinto conde era dono de casas de tolerância.
2. Forma com que certos universitário se referem ao Google (sic).


 

Marcos Archanjo é designer e professor no Centro Universitário Carioca, Rio de Janeiro, e Chanceler da Universidade do Brasil Virtual (UBV) - Second Life, Comandante da Legião Combatente - Fantapunk.

Revisado: AM


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Atualizado em ( 22-Set-2007 )
 
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