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Arielle
Rumble está morta. Todas
as suspeitas apontam para Carlson Bekker, seu ex-namorado. Enquanto o Estado e
o Ministério Público se encarregam de acusar Carlson e mandá-lo direto para a
morte, o jogador, Gaspar Biz, está sendo pago para impedir que isso aconteça.
O
julgamento é em três dias e você precisa estar preparado. Gaspar Biz não é um
agente secreto ou mercenário pronto para resgatar reféns. Ele é um advogado que
agora enfrenta um caso impossível...
Essa
é a premissa de The Spoiler, jogo produzido por Bruno Cavalcanti. Em
estilo similar ao complexo gênero do point & click, do qual Myst é uma
grande referência, o jogo se passa através dos olhos de Gaspar e é comandando pelo
mouse. Arrastando o cursor em cima de itens no cenário, possíveis ações mudarão
a forma do cursor, seja para virar para a direita ou pegar um cartão. O visual
e a jogabilidade se complementam. Não há nada aqui fora do que se espera de um
jogo point & click. Cenários pré-renderizados ilustram de maneira coerente
cada localidade.
O
diferencial do jogo se apresenta, contudo, através do personagem principal e a
ambientação. Cada detalhe, especialmente da narração de Gaspar, contribui para
a imersão do jogador. Desligue as luzes e coloque um headphone, pois cada som,
texto e imagem tem significado.
O
jogo é dividido em duas partes. Na primeira, enquanto investiga o caso, você
falará com testemunhas e procurará respostas. Respostas e pistas que te levarão
desde um bar que toca A-Ha até um parque nada convidativo. O riso e medo
interpolam-se facilmente no decorrer do jogo. Enquanto isso, os comentários de
Gaspar Biz revelarão que apesar de ser controlado pelo jogador, isso não o
impede de ter vida própria. E apesar de não ser, você se sentirá como um
detetive na primeira parte e tudo que for descoberto durante esses três dias, definirá
os acontecimentos na segunda parte.
No
julgamento você não procura mais por respostas, mas como um bom advogado, as
insere de maneira argumentativa na cabeça dos jurados. Você deverá interrogar
testemunhas e protestar enquanto o promotor interroga. A interface de diálogo é
simples, como em outros jogos do gênero, mas para cada opção de pergunta
escolhida, sua sorte é caracterizada pela expressão do promotor (um sorriso
maroto ou decepção). Quando é a vez do promotor interrogar, você, como advogado
de defesa, tem a opção de protestar. Quando optar por fazê-lo, não pense demais
porque você tem tempo limitado para isso. Se fizer o protesto equivocado, sua
credibilidade com os jurados e conseqüentemente a chance de inocentar Carlson,
diminui.
A
trilha sonora desempenha seu papel de maneira sublime também. Poderia se
imaginar que música clássica não caísse bem, mas esse não é o caso. O som
desempenha seu papel de maneira adequada, ajudando o jogador a sentir o que
Gaspar sente e indica quando você pode ter feito algo certo ou errado. Isso sem
mencionar os trechos de A-Ha e como os personagens reagem à música.
Apesar de o
jogo seguir uma história específica e não abrir espaço para desvios do fio da
meada, isso não elimina a possibilidade de explorar diferentes caminhos. Tudo
que é, e pode ser feito no jogo, tem ligação com a história principal. Por isso,
há diferentes formas de chegar ao mesmo final ou para um final diferente.
O jogo não é
impecável. Às vezes se ingressa em um diálogo repetido e não é possível sair do
mesmo imediatamente. Da mesma forma, se você fica sem saber o que fazer, pode
ser um pouco difícil (para os menos acostumados) descobrir a solução de algum
trecho específico.
Em suma, The
Spoiler é um grande passo para os jogos independentes. Faz uso criativo e
inteligente de um gênero praticamente já esquecido enquanto o jogador vivencia
uma história única. Filmes de advogados são comuns, mas nenhum deles consegue
transmitir simultaneamente a seriedade, o humor e a refletividade presente
aqui. Encare isso como uma história interativa de investigação inteligente,
debates acalorados, humor ácido e ambigüidades morais. Descubra se Carlson é
inocente ou não, e que fim Gaspar terá... Afinal, falar mais que isso seria de
fato um spoiler.
Arthur Protasio é estudante de Direito na PUC-Rio.
Como um fanático por jogos, tem objetivo de os desenvolver, seja
fazendo o design de mapas ou escrevendo os roteiros.
Revisado: AM
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