29-Ago-2008
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Respostas a 7 perguntas sobre game design PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Alessandro Vieira dos Reis   
14-Jan-2008
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Alessadnro Vieira
Não há uma definição consensada de design (e talvez seja melhor assim mesmo, pois definições estanques fossilizam a inventividade). Sempre que alguém afirma algo enfático sobre design é comum ouvir muitos designers falando: "Concordo!" e mais ainda rebatendo "Discordo!".

Prévia: conceito operacional de design

Mas um conceito operacional se faz oportuno para o presente artigo. Daqui por diante, portanto, entenda-se por design neste artigo a) uma função nascida da divisão e especialização de trabalho em uma dada indústria; b) que gira em torno da concepção ou planejamento de produtos e integração da equipe na implementação do projeto; c) que tem como principal foco atender as necessidades do usuário, sejam elas ergonômicas, estéticas, comportamentais etc; d) com isso gerando um diferencial e agregando valor a um produto industrial.

Seguindo essa linha, o que um designer faz? Por que ele é necessário? Primeiramente podemos afirmar que toda indústria madura requer um designer correlato, pois sem ele os produtos não teriam muito valor além do funcional bruto. O designer, portanto, é um profissional que aumenta e refina a qualidade dos produtos industriais acrescentando novos atrativos a estes através de um plano centrado na experiência de uso do consumidor.

1. Por que game designers são necessários? Apenas os programadores e artistas não bastam?

Como colocado anteriormente, uma indústria madura tem diversos processos especializados e sub-divididos, e quanto maior essa especialização e divisão mais perfis de profissionais surgem no mercado. O crescimento da indústria de games fez com que um novo profissional fosse necessário para suprir certas demandas para as quais desenvolvedores de softwares e designers de audiovisual muitas vezes não estão capacitados. (Por exemplo, aplicar técnicas de roleplaying e roteirização para inventar background para personagens de um jogo; ou implementar pesquisas de campo em LAN houses com jogadores para descobrir o que acham de determinado game; ou criar uma design bible que integre jogabilidade, história e requisitos técnicos depois de um brainstorming com toda a equipe; estipular não apenas a interface do jogo, mas a matemática de suas regras; etc). Essas funções se aglutinam no cargo de game designer. Um game design feito de forma profissional e competente é sinal de maturidade da indústria e ao mesmo tempo, num círculo virtuoso, incentivador de sua maturação. Aliás, um dos sinais da necessidade crescente de game designers na indústria de entretenimento digital brasileira é o fato de já haver cursos universitários de graduação voltados para a formação desses profissionais, como o da Anhembi Morumbi na cidade de São Paulo.

2. O que um game designer faz, especificamente?

Ele concebe (de diversas formas possíveis) um plano da experiência que será o jogo quando estiver pronto (conceito, regras, interface, matemática de pontuação, personagens, cenário, fases, objetivos do jogo etc); documenta essa concepção em roteiros racionais de trabalho para o restante da equipe (de uma forma para os desenvolvedores de software, de outra para os designers visuais, de outra para os testadores etc) e gerencia o trabalho dos implementadores, para ter certeza que todos estão seguindo o plano de forma integrada. Ele também ouvirá os outros profissionais da equipe (e eventualmente, testadores de jogabilidade, suporters, balanceadores, beta-testers, usuários in loco etc) para obter feedback sobre o produto. Também é possível que ele precise negociar com produtores e clientes-internos pontos de impasse sobre o projeto. (Há outras funções não citadas aqui, até porque elas vão se inventando diante das peculiaridades de cada projeto).

3. Qual o perfil de competências de um game designer?

Dividi as competências que julgo fundamentais (isso quer dizer que há outras não-fundamentais, mas não por isso não-importantes) do game designer em quatro famílias:

a) Games

Deve ser um gamer apaixonado por jogar... Afinal, ele precisará fazer muito isso (até com jogos que não gosta!) e ver muita gente jogando e ouvir bastante sobre isso (nem sempre isso é agradável, acredite!) Estar sempre atualizado com as novidades do mercado, através de um bom senso de marketing. OBS: Ter um bom domínio da história dos games e de títulos antigos também ajuda!

b) Design

Inventividade (não apenas ser criativo, mas criar idéias que rendam resultados concretos). Hábil para criar documentação rica e precisa para expressar planos de especificações, rascunhos, modelos etc. Capacitado para usar técnicas de pesquisa do comportamento do jogador (como fazer um focus group, entrevistas, observação-participante etc).

c) Gerenciamento de Projetos

Práticas de gerência de projetos. Afinal ele não apenas "fica bolando as idéias": ele deve garantir que elas sejam implementadas corretamente pela equipe. Conhecimentos razoáveis dos outros setores técnicos da empresa (para entender o que os colegas estão falando e se fazer compreender também. OBS: Isso é especialmente verdadeiro para lidar com desenvolvedores de software)

d) Atitudes Pessoais

Como habilidade interpessoal, a capacidade de se comunicar eficazmente e esclarecer suas concepções a outros profissionais da equipe, puxando-as do pessoal-abstrato para o compartilhado-concretizável.

Tolerância a frustração e resistência a divagação inerentes ao trabalho inventivo. Trata-se de um trabalho às vezes meio viajoso onde a extravagância pode falar mais alto que o senso de realismo necessário a todo projeto ("Esses game designers, apenas ficam lá, bolando idéias malucas"). Portanto, cuidado para equilibrar as "visitas da musa" com o cronograma! Paradoxalmente também pode ser um trabalho enfadonho, especialmente na hora de detalhar minuciosamente elementos de um jogo ou ter que negociar com colegas que teimam em ter uma idéia radicalmente oposta sobre algum detalhe do jogo.

4. Quem pode ser um game designer?

É comum achar empresas em que o game designer seja formado em computação e cursos afins, até porque a maioria dos membros dessas empresas vieram desses cursos. Em geral o game designer representa um cargo de chefia e gerência, por isso é delegado a um membro da equipe com mais mérito e/ou prestígio. O fato da gerência de projetos ser um requisito faz com que engenheiros (especialmente de produção) sejam fortes candidatos ao cargo. Mas a necessidade de entender o comportamento do jogador puxa o cargo para pessoas com formação em design e mesmo em psicologia (é o meu caso particular). A necessidade de ser um gamer experiente e com conhecimento enciclopédico sobre esses produtos e seu mercado demanda alguém que tenha paixão por jogar (o que reforça o valor do game designer vindo da computação). Por causa dessa diversidade citada é comum que não exista apenas um game designer fixo na equipe, mas que esse função seja exercida por uma pequena equipe heterogênea (em uma empresa grande) ou virtualmente por todos (no caso de uma empresa pequena), ou mesmo que seja um papel coletivo em determinadas fases do projeto, e não um cargo distinto. O que entendo como mais eficiente é que haja um game designer líder e se possível 2 ou 3 outros que exerçam papéis de auxiliar, crítico, incentivador e âncora-técnica.

5. Há diferentes tipos de game designers?

Sim, porque cada projeto de game tem suas peculiaridades. Os tipos de game designer citados a seguir não esgotam todas as possibilidades de especificações desse cargo, portanto. Há, por exemplo, o level designer, que atua fazendo o trabalho, um tanto enfadonho para muitos, de enriquecer com detalhes o cenário geral que o game designer líder cria. O level designer preenche os níveis do jogo como se fosse um decorador preenchendo com mobília os níveis de um prédio do qual o game designer foi um arquiteto, inserindo elementos detalhados e fazendo o jogo ter mais coerência e verossimilhança. OBS: nem todo projeto requer um level designer, depende de diversas contingências.
Há ainda quem atue com roteiristas e desenhistas de storyboards como um tipo especial de game designer para jogos centrados na narrativa. Para jogos de economia interna densa ou jogabilidade especialmente complexa, como os MMOGs, ainda há os designers de sistemas, que precisam ser bons de matemática.

6. Como eles aprendem e desenvolvem seu ofício?

Hands On! Só se aprende a projetar projetando! Ser instruído por um outro game designer mais experiente ou aprender observando o que ele faz ou ler livros e sites (e este artigo!) ajuda, mas apenas fazer um jogo efetiva sua competência. O game designer tem sua competência medida pelo sucesso dos jogos que projeta.

7. Como saber se um game designer está trabalhando direito?

Clareza e riqueza de especificações: Os outros profissionais da equipe não se queixam das documentação e das outras formas de instruções que recebem.
Há um senso de objetivo na equipe que desenvolve o jogo que reduz em muito os conflitos inerentes ao trabalho grupal. Eles sabem o que estão fazendo e o porquê, uma vez que o game designer passa eficazmente a visão do que virá a ser o jogo e consegue o apoio da equipe para chegar a essa visão.
Gerenciamento enxuto: eventuais atrasos no projeto são justificáveis apenas por problemas técnicos ou externos, e não gerenciais, como confusões sobre os objetivos do projeto.
Os jogadores demonstram satisfação já no beta-teste e afins.

Conclusão: o game designer como o timoneiro da equipe

Tecnologias de última geração cativam jogadores e impulsionam muito a indústria de games, mas rapidamente se tornam comódites. O grande trunfo da empresa de jogos é um game design bem feito. Especialmente no Brasil, onde não há recursos financeiros e tecnológicos abundantes para os games se destacarem através de technology push, o sucesso do negócio da empresas de jogos está fortemente ligado a game designers competentes.


Este artigo foi escrito por Alessandro Vieira dos Reis - Game Designer e Analista do Comportamento formado em Psicologia pela UFSC. Trabalha na TechFront, em Florianópolis-SC, desenvolvendo jogos casuais. Blog: http://gamesecomportamento.blogspot.com. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email  Entre em contato com ele por seu e-mail, ou aqui mesmo pela Gamecultura.  

 

Revisado: LM 


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Comentários (6)Add Comment
UAUuuuuuu
Por Claudia Castilho, 14 de janeiro de 2008
Alessandro
Mais uma vez vc colocou bem as palavras! smilies/smiley.gif
Muito bom ler este seu texto também.
Nós da comunidade agradecemos por mais este desenvolvimento do tema, que é sempre bem vindo!
Abraços
Claudia
...
Por Rafael Morado, 23 de janeiro de 2008
Muito bom o texto, alessandro. Essas questoes fundamentais do que eh oficio nem sempre sao muito claras.

Essas funcoes que vc descreveu se adequam mais a um creative director que a um game designer se consideramos projetos com mais de 100 pessoas envolvidas.

O creative director seria o cara com a VISAO que efetivamente guia a tropa.



Mais um detalhe, a parte de planejamento e controle fica mais a cargo do produtor e do chefe de projeto que do game designer.
...
Por Roger Tavares, 24 de janeiro de 2008
bem percebido rafael, gracas a sua experiencia com projetos de grande porte.

em empresas de pequeno e medio porte o game designer realmente acaba acumulando essas funcoes, mesmo nao sendo o cara mais indicado para os trabalhos organizacionais.

valewwww
...
Por Alex, 28 de janeiro de 2008
Louvável a defesa da importância do profissional de design no desenvolvimento de jogos. Mas acho estranho e às vezes exagerado uso do termo game design, mais ainda do game designer e algumas estranhas co-relações com asterisco-design. Também estranho o autor afirmar que "o game designer seja formado em computação e cursos afins, até porque a maioria dos membros dessas empresas vieram desses cursos" e, com menor ênfase diga que "a necessidade de entender o comportamento do jogador puxa o cargo para pessoas com formação em design e mesmo em psicologia".

Me parece que há um equívoco aqui e escrevo apenas no sentido inicial de alertar para que se procure entender o que é, realmente, design e quais os seus braços de atuação. Há de se reforçar, mais que tudo, que design é uma área do conhecimento relativo às ciências humanas e não exatas, sendo esta a formação/conhecimento prioritário.

Outro trecho me faz pensar, novamente, que há alguma incoerência nas informações: "O game designer tem sua competência medida pelo sucesso dos jogos que projeta.". Me soa como se o design fosse "arte", subjetivo e empírico. Onde fica o conhecimento em ergonomia? Em usabilidade, comunicação, semiótica ou Gestalt? Psicologia das formas ou conhecimento sobre composição cromática?

Reforço que minha inteção aqui não é, exatamente criticar o artigo; como disse, é louvável defender a posição do designer num projeto. Mas questiono uso de terminologia que traria para o design outras funções que me parecem alheia a ele.

Também deixo uma questão, da qual gostaria de pesquisar, com mais calma, no futuro: qual a diferença entre "game design" e design de jogos? Ou, ainda, em qual vertente do design se encaixa a atividade do design para jogos eletrônicos: gráfico ou produto?

Um abraço!
respostas a novas perguntas
Por Alessandro Vieira dos Reis, 29 de janeiro de 2008
Olá, pessoal!

Fico feliz de saber que tanta gente comentou meu artigo numero 2, sobre Game Design.

Inclusive sinto que importantes pontos (até para o meu aprendizado) foram tocados nos comentários.

Rafael, vc está coberto de razão qto ao papel do "Criative Director" e do "Producer". Eu não os citei, mas sugeri no meu texto que há diversos papéis além dos que eu cito. Em empresas com mais de 100 pessoas envolvidas esses cargos parecem mesmo vitais. Espero q um dia exista várias delas por aqui nas terras tupiniquins.

Qto a crítica do Alex... Hehehehe, meu caro.. Vc sabia que eu sou psicologo? Se há alguém aqui que defende que Game Design é algo "Ciências Humanas", sou EU! :-D

Eu apenas citei que comumente há mais pessoas da computacao e afins fazendo o papel de Game Designer pq elas estão em maior numero nas empresas :-D

Qto as suas perguntas, Alex:

1) qual a diferença entre "game design" e design de jogos?

Essa discussão é puramente terminológica, como a propria questão ancestral dessa: "O que é Design?", como o conflito entre Munari e esses opositores prova. Como eu disse no meu artigo, não há consenso sobre esses termos e provavelmente nunca haverá, como a História do Design demonstra.

2) em qual vertente do design se encaixa a atividade do design para jogos eletrônicos: gráfico ou produto?

Vc já pensou que pode ser uma nova vertente? ;-)
A resposta ainda não sabemos, contudo...
...
Por Alexo, 21 de fevereiro de 2008
Não, sem problema. Eu tinha notado pelo seu perfil. Quando você pergunta "quem pode ser game designer?" e cita psicólogos, engenheiros e informatas como candidatos ao cargo, antes mesmo de falar dos próprios designers (!), é que me força pensar que há ainda alguma confusão nos conceitos. Eu, pelo menos, ainda estou confuso com vários deles (tenho ainda mais dúvidas do que certezas...) então, eventualmente vou questionar alguns deles, não com intenção de crítica, mas do amadurecimento.

Um abraço

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Atualizado em ( 11-Mar-2008 )
 
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