Não há uma definição consensada de design (e talvez seja melhor assim mesmo,
pois definições estanques fossilizam a inventividade). Sempre que alguém afirma
algo enfático sobre design é comum ouvir muitos designers falando: "Concordo!"
e mais ainda rebatendo "Discordo!".
Prévia: conceito operacional de design
Mas um conceito operacional se faz oportuno
para o presente artigo. Daqui por diante, portanto, entenda-se por design neste
artigo a) uma função nascida da divisão e especialização de trabalho em uma
dada indústria; b) que gira em torno da concepção ou planejamento de produtos e
integração da equipe na implementação do projeto; c) que tem como principal
foco atender as necessidades do usuário, sejam elas ergonômicas, estéticas,
comportamentais etc; d) com isso gerando um diferencial e agregando valor a um
produto industrial.
Seguindo essa linha, o que um designer faz? Por que ele é necessário?
Primeiramente podemos afirmar que toda indústria madura requer um designer
correlato, pois sem ele os produtos não teriam muito valor além do funcional
bruto. O designer, portanto, é um profissional que aumenta e refina a qualidade
dos produtos industriais acrescentando novos atrativos a estes através de um
plano centrado na experiência de uso do consumidor.
1. Por que game designers são necessários? Apenas os programadores e
artistas não bastam?
Como colocado anteriormente, uma indústria madura tem diversos processos
especializados e sub-divididos, e quanto maior essa especialização e divisão
mais perfis de profissionais surgem no mercado. O crescimento da indústria de games
fez com que um novo profissional fosse necessário para suprir certas demandas
para as quais desenvolvedores de softwares e designers de audiovisual muitas
vezes não estão capacitados. (Por exemplo, aplicar técnicas de roleplaying e
roteirização para inventar background para personagens de um jogo; ou
implementar pesquisas de campo em LAN houses com jogadores para descobrir o que
acham de determinado game; ou criar uma design bible que integre jogabilidade,
história e requisitos técnicos depois de um brainstorming com toda a equipe;
estipular não apenas a interface do jogo, mas a matemática de suas regras;
etc). Essas funções se aglutinam no cargo de game designer. Um game design
feito de forma profissional e competente é sinal de maturidade da indústria e
ao mesmo tempo, num círculo virtuoso, incentivador de sua maturação. Aliás, um
dos sinais da necessidade crescente de game designers na indústria de
entretenimento digital brasileira é o fato de já haver cursos universitários de
graduação voltados para a formação desses profissionais, como o da Anhembi
Morumbi na cidade de São Paulo.
2. O que um game designer faz, especificamente?
Ele concebe (de diversas formas possíveis) um plano da experiência que será o
jogo quando estiver pronto (conceito, regras, interface, matemática de
pontuação, personagens, cenário, fases, objetivos do jogo etc); documenta essa
concepção em roteiros racionais de trabalho para o restante da equipe (de uma
forma para os desenvolvedores de software, de outra para os designers visuais,
de outra para os testadores etc) e gerencia o trabalho dos implementadores,
para ter certeza que todos estão seguindo o plano de forma integrada. Ele
também ouvirá os outros profissionais da equipe (e eventualmente, testadores de
jogabilidade, suporters, balanceadores, beta-testers, usuários in loco etc)
para obter feedback sobre o produto. Também é possível que ele precise negociar
com produtores e clientes-internos pontos de impasse sobre o projeto. (Há
outras funções não citadas aqui, até porque elas vão se inventando diante das
peculiaridades de cada projeto).
3. Qual o perfil de competências de um game designer?
Dividi as competências que julgo fundamentais (isso quer dizer que há outras
não-fundamentais, mas não por isso não-importantes) do game designer em quatro
famílias:
a) Games
Deve ser um gamer apaixonado por jogar... Afinal, ele precisará fazer muito isso
(até com jogos que não gosta!) e ver muita gente jogando e ouvir bastante sobre
isso (nem sempre isso é agradável, acredite!)
Estar sempre atualizado com as novidades do mercado, através de um bom senso de
marketing. OBS: Ter um bom domínio da história dos games e de títulos antigos
também ajuda!
b) Design
Inventividade (não apenas ser criativo, mas criar idéias que rendam resultados
concretos). Hábil para criar documentação rica e precisa para expressar planos de
especificações, rascunhos, modelos etc.
Capacitado para usar técnicas de pesquisa do comportamento do jogador (como
fazer um focus group, entrevistas, observação-participante etc).
c) Gerenciamento de Projetos
Práticas de gerência de projetos. Afinal ele não apenas "fica bolando as
idéias": ele deve garantir que elas sejam implementadas corretamente pela
equipe.
Conhecimentos razoáveis dos outros setores técnicos da empresa (para entender o
que os colegas estão falando e se fazer compreender também. OBS: Isso é
especialmente verdadeiro para lidar com desenvolvedores de software)
d) Atitudes Pessoais
Como habilidade interpessoal, a capacidade de se comunicar eficazmente e
esclarecer suas concepções a outros profissionais da equipe, puxando-as do
pessoal-abstrato para o compartilhado-concretizável.
Tolerância a frustração e resistência a divagação inerentes ao trabalho
inventivo. Trata-se de um trabalho às vezes meio viajoso onde a extravagância
pode falar mais alto que o senso de realismo necessário a todo projeto ("Esses game designers, apenas ficam lá, bolando idéias malucas"). Portanto, cuidado
para equilibrar as "visitas da musa" com o cronograma! Paradoxalmente também
pode ser um trabalho enfadonho, especialmente na hora de detalhar
minuciosamente elementos de um jogo ou ter que negociar com colegas que teimam
em ter uma idéia radicalmente oposta sobre algum detalhe do jogo.
4. Quem pode ser um game designer?
É comum achar empresas em que o game designer seja formado em computação e
cursos afins, até porque a maioria dos membros dessas empresas vieram desses
cursos. Em geral o game designer representa um cargo de chefia e gerência, por
isso é delegado a um membro da equipe com mais mérito e/ou prestígio. O fato da
gerência de projetos ser um requisito faz com que engenheiros (especialmente de produção) sejam fortes candidatos ao cargo. Mas a necessidade de entender o
comportamento do jogador puxa o cargo para pessoas com formação em design e
mesmo em psicologia (é o meu caso particular). A necessidade de ser um gamer
experiente e com conhecimento enciclopédico sobre esses produtos e seu mercado
demanda alguém que tenha paixão por jogar (o que reforça o valor do game designer
vindo da computação).
Por causa dessa diversidade citada é comum que não exista apenas um game designer fixo na equipe, mas que esse função seja exercida por uma pequena
equipe heterogênea (em uma empresa grande) ou virtualmente por todos (no caso
de uma empresa pequena), ou mesmo que seja um papel coletivo em determinadas
fases do projeto, e não um cargo distinto. O que entendo como mais eficiente é
que haja um game designer líder e se possível 2 ou 3 outros que exerçam papéis
de
auxiliar, crítico, incentivador e âncora-técnica.
5. Há diferentes tipos de game designers?
Sim, porque cada projeto de game tem suas peculiaridades. Os tipos de game designer citados a seguir não esgotam todas as possibilidades de especificações
desse cargo, portanto.
Há, por exemplo, o level designer, que atua fazendo o trabalho, um tanto
enfadonho para muitos, de enriquecer com detalhes o cenário geral que o game designer líder cria. O level designer preenche os níveis do jogo como se fosse
um decorador preenchendo com mobília os níveis de um prédio do qual o game designer foi um arquiteto, inserindo elementos detalhados e fazendo o jogo ter
mais coerência e verossimilhança. OBS: nem todo projeto requer um level designer, depende de diversas contingências.
Há ainda quem atue com roteiristas e desenhistas de storyboards como um tipo
especial de game designer para jogos centrados na narrativa. Para jogos de
economia interna densa ou jogabilidade especialmente complexa, como os MMOGs,
ainda há os designers de sistemas, que precisam ser bons de matemática.
6. Como eles aprendem e desenvolvem seu ofício?
Hands On! Só se aprende a projetar projetando! Ser instruído por um outro game designer mais experiente ou aprender observando o que ele faz ou ler livros e
sites (e este artigo!) ajuda, mas apenas fazer um jogo efetiva sua competência.
O game designer tem sua competência medida pelo sucesso dos jogos que projeta.
7. Como saber se um game designer está trabalhando direito?
Clareza e riqueza de especificações: Os outros profissionais da equipe não se
queixam das documentação e das outras formas de instruções que recebem.
Há um senso de objetivo na equipe que desenvolve o jogo que reduz em muito os
conflitos inerentes ao trabalho grupal. Eles sabem o que estão fazendo e o porquê,
uma vez que o game designer passa eficazmente a visão do que virá a ser o jogo
e consegue o apoio da equipe para chegar a essa visão.
Gerenciamento enxuto: eventuais atrasos no projeto são justificáveis apenas por
problemas técnicos ou externos, e não gerenciais, como confusões sobre os
objetivos do projeto.
Os jogadores demonstram satisfação já no beta-teste e afins.
Conclusão: o game designer como o timoneiro da equipe
Tecnologias de última geração cativam jogadores e impulsionam muito a indústria
de games, mas rapidamente se tornam comódites. O grande trunfo da empresa de
jogos é um game design bem feito. Especialmente no Brasil, onde não há recursos
financeiros e tecnológicos abundantes para os games se destacarem através de
technology push, o sucesso do negócio da empresas de jogos está fortemente
ligado a game designers competentes.
Revisado: LM
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Mais uma vez vc colocou bem as palavras!
Muito bom ler este seu texto também.
Nós da comunidade agradecemos por mais este desenvolvimento do tema, que é sempre bem vindo!
Abraços
Claudia