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A música incidental do cinema e do video game PDF Imprimir E-mail
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Escrito por José Julio Stateri   
07-Fev-2008
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Acredito que a música, dentre as artes, é a que apresenta a maior força de expressão das emoções humanas, motivo pelo qual os povos primitivos atribuíam-lhe origem divina. Presente nas suas comemorações, festejos e manifestações religiosas, apresentava-se como parte delas sendo, ao mesmo tempo, uma forma de linguagem espontânea e instintiva.

No decorrer da história, evolui para uma forma de arte independente  passando a apresentar uma riqueza de formas, estilos e gêneros visando a atender um público cada vez mais erudito e de
gostos diferentes.

Como é feita a música? Diria que por meio de formas de organização e relações entre os sons e silêncios constrói-se a linguagem musical e embora a sua comunicação seja subjetiva, o seu componente melódico desperta a sensibilidade afetiva do homem de forma praticamente universal. Também os elementos harmônicos, rítmicos e de timbre fazem parte da "comunicação musical", sendo ambição do compositor manipular esses elementos de forma que a sua expressão lhe satisfaça e cumpra os seus objetivos estéticos. Dentre esses é possível considerar várias situações, como a daquela em que se tem que atender às exigências de uma platéia restrita e refinada (a música de câmara), aquela que é voltada para as salas de concerto (a música orquestral), o coral religioso destinado aos cultos etc. Pode-se imaginar possíveis peças, com os seus respectivos objetivos, que podem ter em comum o fato de serem escritas de acordo com a inspiração espontânea do compositor, entretanto existe outro gênero de composição cujos objetivos e conseqüentemente os seus temas, subordinam-se menos à inspiração e mais ao propósito de ser o fundo de alguma manifestação dramática: é a música incidental.

Aqui, fica importante lembrar o quanto a "música de fundo" amplia ou completa a expressão emotiva de uma peça valorizando-a e, muitas vezes, acabando por distinguir-se da mesma, tal é o seu peso no todo da obra. Encontramos situações onde a música incidental é, na realidade, uma obra já existente que ficou apropriada para uma determinada peça teatral ou cinematográfica. Essa poderá cumprir o seu papel, mas dificilmente será tão eficiente como aquela composta especialmente para fazer parte da mesma.

Quando um tema é criado com o propósito de se obter o "clima" e a valorização de determinadas passagens, idéias ou personagens, ele costuma ser denominado de leitmotiv (ou leitmotif) e, segundo o Dicionário Grove de Música é: "um tema ou idéia musical claramente definida, representando ou simbolizando uma pessoa, objeto, idéia etc., que retorna na forma original, ou em forma alterada, nos momentos adequados, numa obra dramática (principalmente operística)".

Desde que os irmãos Lumiére aperfeiçoaram a projeção cinematográfica, em 1895, o cinema vem desenvolvendo-se como técnica e como arte e ultimamente vem se modificando, procurando ser ainda mais interessante para enfrentar a TV, o vídeo e o DVD. No cinema, a ilusão de movimento, provocada devido ao fenômeno da persistência da imagem na retina, leva o observador à uma sensação visual que reproduz a realidade e, muitas vezes, maravilhosas fantasias (como no caso dos desenhos) de forma extraordinariamente atrativa. A partir de 1927, o cinema desenvolveu um sistema de gravação que utiliza uma faixa da própria película cinematográfica, surgindo assim o "cinema falado". Na mesma faixa grava-se a música e a fala. Com esse aprimoramento, a música para cinema foi desenvolvendo-se e sendo valorizada como uma
arte especial.

Devido à importância da sonorização, como complemento do filme, os grandes produtores passaram a preferir músicas escritas especialmente para suas obras, de acordo com o enredo. Isso estimulou vários compositores a dedicarem-se a essa forma de trabalho. Alguns, como Bernard Hermann e Niklós Rozsa, passaram a produzir quase que exclusivamente para o cinema  e outros mais famosos, como Aaron Copland, Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich também foram atraídos para essa modalidade de composição. Atualmente há um número cada vez maior de compositores de música para cinema, como por exemplo, John Williams, Philip Glass (que tornou-se conhecido principalmente devido às suas peças minimalistas), John Powell e Joe Hisaishi. No Brasil, destacou-se o compositor Radamés Gnatalli que iniciou-se nessa área produzindo, em 1933, para o filme Ganga Bruta.

Cerca de 50 anos mais tarde, surge a primeira geração de computadores que eram compostos de válvulas eletrônicas. Com a evolução vieram os transistores e, posteriormente, os processadores que continuam sendo aperfeiçoados até a atualidade. Com as técnicas de produção em massa e as facilidades da montagem especializada, logo estas máquinas fantásticas puderam ser barateadas e disponibilizadas ao consumo das pessoas comuns. O PC (acrônico de personal computer), computador pessoal, é então criado pela IBM. Computadores familiares demandam diversão e entretenimento para todos, assim surgem os jogos eletrônicos ou vídeo games. Esses inicialmente bem simples, reproduzindo, de forma virtual, jogos como os de xadrez, dama e ping pong, foram ganhando complexidade na medida em que passaram a ocorrer melhorias na tecnologia, tais como aumento de resolução e inserção de cores.

Além dos PCs, surgem os consoles com os quais se pode jogar individualmente, em dupla ou com mais participantes através da conexão em rede. O jogos mais modernos de ação, interpretação de papéis e outros, pedem trilhas sonoras mais elaboradas para melhorar o clima do jogo e, ao mesmo tempo, estimularem a concentração.

Existem várias semelhanças de apresentação e de propósitos entre o cinema e os jogos eletrônicos: exploram a imagem e o som, recorrem à fantasia e enredos cativantes, destinam-se ao divertimento. A diferença básica está no fato que, no cinema, o espectador permanece passivo, mesmo quando se emociona, identificando-se com o personagem ou com a situação, a ponto de realizar uma catarse. Já no vídeo game, ele deixa de ser o espectador para ser o participante, onde o envolvimento emocional é bem maior. Com o advento da Internet os jogos têm a possibilidade de conectar jogadores, de qualquer parte do mundo, ampliando as atividades de divertimento, interação cultural e ao mesmo tempo apresentando-se mais desafiantes e intelectuais.

A meu ver a música acompanha esse progresso ampliando a experiência proposta pelos jogos, criando suspense, expectativa e outras emoções desejadas. Basta ver e ouvir diversos jogos, no desenrolar da sua evolução histórica, para se comprovar um aumento real de qualidade, tanto visual (alguns videos games em terceira dimensão assemelham-se ao cinema) quanto sonora (encontramos músicas compostas por autores consagrados como Nobuo Uematsu, Motoi Sakuraba e Yasunori Mitsuda, especialmente para os jogos). As novas músicas encomendadas deixam de apresentar os característicos temas curtos, repetitivos e muito pobres quanto a orquestração. Agora, com formas definidas, seguindo uma tendência mais erudita, com motivos mais apropriados para os roteiros e com orquestrações extraordinariamente elaboradas, elas cumprem com mais eficiência o seu papel.

Concluindo, arrisco a afirmar que a música, com a sua propriedade de levar o participante (ouvinte) ao arrebatamento (às vezes até o êxtase) e ao desejo da repetição, apresenta-se como um poderoso complemento do video game. Ela auxilia na concentração e imersão na fantasia e fruição dos conteúdos explícitos e de outros (que poderão ser igualmente importantes quando pensamos em aprendizagem), graças ao exposto acima e aos entrelaçamentos de informações e vivências. Portanto hoje, sabendo-se mais sobre a sua ação, a produção da música incidental para video game passa a exigir uma elaboração bem mais cuidada e planejada da parte de quem a produz. Em lugar de adaptações e/ou improvisações, abre-se espaço para estudos cuidadosos e profundos buscando-se atender aos objetivos do jogo.


Jose Julio Stateri é Mestre em Ciência (Educação), professor de disciplinas teórico-musicais e didática do Curso Superior de Música da FAC-FITO, onde está radicado há 30 anos, autor de diversos livros da área e de composições.

Revisado: AM


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Atualizado em ( 13-Fev-2008 )
 
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