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Uma renomada instituição de ensino brasileira, lançou um
concurso para responsabilidade social. Foram inscritos
os mais diversos trabalhos, porém tal instituição desconhecia a diferença
entre os conceitos de ‘responsabilidade social’ e ‘assistencialismo’. |
Compreende-se por um trabalho com responsabilidade social, aquele que se presta a trazer benefícios à sociedade, sejam eles a curto ou longo prazo, mas principalmente, que melhorem as condições de relacionamento das classes diversas, estimulem a cidadania, a igualdade e possibilitem ao seu público alvo a integração. Projetos culturais, ou todo aquele que estimule a aquisição de conhecimento, o desenvolvimento de uma cultura própria ou mesmo o resgate da auto-estima do indivíduo, podem ser considerados de responsabilidade social.
Já o assistencialismo é uma posição imediatista diante de um problema. Entregue ao necessitado aquilo que ele precisa de pronto, sem se preocupar em ensiná-lo a conseguir futuramente o que pode vir a precisar. Aos famintos, entregue cestas básicas, aos doentes entregue remédios, aos desabrigados entregue um teto provisório, um albergue.
Responsabilidade social consiste em investir no aperfeiçoamento profissional de pessoas desprivilegiadas para que estas possam competir e conquistar seu lugar, em investir na divulgação da cultura afro-brasileira para que os jovens negros, desde a mais tenra idade, possam conhecer suas raízes e saberem que tem do que se orgulhar.
Mas afinal, que tipo de preconceito leva os representantes de uma instituição como esta a negarem o valor do Jogo como responsabilidade social?
Analisando historicamente, podemos compreender melhor por que os jogos têm sido vistos de maneira tão pejorativa: desde a revolução industrial, os jogos passaram a ser vistos como perda de tempo. Alguns teóricos mais radicais chegaram a afirmar que as crianças encontrariam suficiente diversão realizando suas tarefas (ou até mesmo trabalhos pesados destinados aos adultos) e que os jogos não proporcionavam nada de positivo para seu desenvolvimento, apenas ócio. Sobrevivendo a este pensamento temos o xadrez. Considerado no Brasil como um jogo da elite, o xadrez guarda o seu valor por ser visto como um exercício de lógica. Desta forma podemos compreender por que ele não foi atingido pelo pensamento de que os jogos são fruto do ócio, afinal ele mostra sua pronta utilidade prática.
Retornando um pouco mais no tempo percebemos que as mais diversas culturas dedicaram boa parte de seu tempo aos jogos e os consideraram elementos de grande valor. Excetuando o pensamento medieval que, provavelmente, poderia ser comparado a esse mesmo pensamento pós Revolução Industrial, com o adicional de que os jogos, além de não servirem de nada seriam prejudiciais inclusive à alma!
Nos voltemos então às civilizações que se dedicaram aos jogos e os tornaram uma expressão de sua cultura: os gregos com as olimpíadas e tudo o que elas representaram e representam até hoje: do culto ao corpo perfeito à preocupação com uma mente e um corpo sãos; Os jogos de roda e os ritos aborígines, que através do Ilinx fazem o corpo se desprender do espírito, transportando seus participantes para outras realidades; Os jogos de carta e o tarot de Marsella, duas maneiras de se representar o jogo de azar através do Allea, um decidindo os ganhos ou as perdas monetárias de seu participante e outro guiando o rumo da vida daquele que procura uma direção.
Os jogos representaram e representam ainda hoje a cultura dos povos. E esta representação se dá de uma maneira pura, despreocupada, que nos garante maior veracidade do que fontes históricas que possam ter sofrido influências religiosas ou políticas. Os jogos nasceram para, além de nos trazer alívio para a mente e o corpo, nos integrar ao nosso meio. Nos mostrar como fazer parte de algo maior. E isto, certamente, é demonstrar uma grande, senão a maior de todas, preocupação social. Pois sem a aceitação do indivíduo e depois do coletivo, nem sequer somos o que nos torna humanos: animais sociais, que dependem uns dos outros mutuamente seja tanto para crescer, desenvolver, quanto para conhecer os sentimentos mais límpidos e também os mais terríveis.
Atualmente, os jogos constroem comunidades, vendem conceitos, transmitem valores. Talvez sejam as ferramentas mais poderosas de comunicação com os jovens de todas as classes. Afinal, se há algo que caracterize jovens de qualquer classe social é a necessidade que eles têm de se divertirem, serem aceitos num grupo e de se aceitarem (o que talvez seja o mais complexo). Esta ferramenta, pode e deve ser utilizada com os melhores fins, sempre respeitando a diversão em primeiro lugar: o que torna o jogo, um jogo propriamente dito! A falta de obrigação do jogar, a liberdade que há neste ato, o fato de encontrar algo no qual você realmente seja bom e se integre. É disso que o jogo trata. Torná-lo educativo seria destituí-lo de sua função e torná-lo meramente um paliativo assistencialista.
Nós, assim como as instituições (principalmente as de comunicação), devemos tomar muito cuidado ao julgar um veículo pelo que ele aparenta ser. Se um jogo sem diversão não funciona, logo um jogo educativo chato jamais foi um jogo. Muitas vezes, basta criarmos o interesse, engatilharmos a vontade, a procura do aprendizado, o maior passo de todos estará dado e o que vier daí por diante será lucro.
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